Arquivo pretensiosinho

domingo, 31 de maio de 2009

Fábulas

Gregor conseguiu acordar e está na labuta de novo.
Doroty levou os amigos para um passeio em sua casa.
Matias Pascal tomou vergonha na cara e assumiu a esposa.
Alice internou-se numa Rehab e agora não bebe mais limonada.
Augusto Matraga assistiu a um culto
da Igreja Universal do Reino de Deus
e resolveu dividir
em suaves parcelas
o débito no Serasa.

Mas Hamlet se vê solitário de novo e chama com sotaque britânico o mordomo:
Tobias está cansado dos caprichos do velho ranzinza
e não sabe se deve ou não servir mais chá.

O relógio

Os ponteiros dos segundos bateram as canelas
na quina da cama no escuro.

O de minuto corre despingüelado para a esquerda
e para a direita, dependendo da mão que dá mais acesso.

Não há marcador para as horas,
e elas conseguem infiltrar a defesa adversária
com ajuda de corta-luzes ensaiados bem a tempo pelo técnico.

Os números são representados por artistas
em picadeiros divertidos de quando em quando na pequena cidade.

Há ainda a função do despertador auto-programável,
que acaba passando um cafezinho e atendendo o telefone.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Acordar cedo

acordar bem cedo
tomar um banho sem pressa
borrifar o único
perfume que tenho
vestir a melhor roupa
calçar os sapatos
que você me deu
comer qualquer coisa
esquecer o guarda-chuva
e não voltar para buscar
comprar um buquê de rosas
escrever um cartão
tomar um ônibus lotado
até o fim do mundo
e descer a rua da sua casa
esperando a tempestade
que despenteia
o meu cabelo
acentuar o teor
de clichê insistente
nas minhas palavras
encharcadas de amor

(acordar cedo
e olhar para o teto
até de madrugada
cumprindo a promessa
que lhe fiz com pesar:
acordar e dormir
escrevendo versos
até o tempo me redimir)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Bumbo

Bumbo. Bumbo. Bumbo. E pára. É o desfile mais bonito na avenida. Os carros Volkswagen, Ford, Chevrolet, Nissan, Honda. Uma festa para os turistas. Faraônicos carros de alegoria. Penduricalhos coloridos de vermelho e verde. De laranja e azul. Cor-de-rosa e amarelo. Uma história que evolui cantada. Bi-biii, bi-biii. E faixas e mais faixas. Os carros seguem enfileirados no cortejo que homenageia a velha-guarda. Os santos foliões dos carnavais passados. Os não tão santos também. Ê laiá! As memórias da velha escola. As barulhentas buzinas soando em harmonia. Bi-biiii, bi-biiii. Todo mundo junto na mesma pista. E o motoboy que passava pegou a vendedora de cosméticos pela mão. A saia rodou bonita, bonita. Porta-bandeira e Mestre-sala. Um sorriso de dentes tão brancos que ofuscam os camarotes das cervejas. Rodando e rodando e rodando. A celebridade sai do edifício São Luiz Gonzaga de biquininho mínimo toda emplumada. Olha o samba da fama aí, minha gente! Plumas e paetês! Rainha da bateria. Madrinha da bateria. Tia da bateria. Tia da cocada. O que não falta é espaço para mulher gostosa. Olha a cocada! Se joga pintosa! Ponto de ônibus apinhado é arquibancada. Simbora moçada! E a torcida grita. Ooolllaaa. O busão pára. A ala dos trabalhadores desfila empilhada, chacoalhando, chacoalhando. Descendo até o chão. O sorriso cansado muito antes da quarta-feira de cinzas. Que trabalho, que nada! Olha a curva! Ooolllaaa. Eu trocaria as cadeiras dos engraxates pelas cadeiras das mulatas. Muito melhor! Desce o morro. Tamborins. Cuícas. Pandeiros. Até o chão, até o chão. Samba até de manhã nas paradas em cada boteco. Reco-reco. Sucesso! Ê laiá! O ritmo que contagia a multidão. Ooolllaaa. Felicidade, esperança, meu irmão! A pancada em tempos de três por quatro. Bumbo. Bumbo. Bumbo. E pára. Um carnaval fora de tempo todo enfeitado de colorido. Que bonito! É Seo Benedito todo esparramado. Derramado feito cachaça pela calçada. É ele quem comanda a festa, mestre de cerimônias, mestre de bateria, regente da orquestra. Apito de Seo Benedito. Bi-biiii, bi-biii. Bumbo. Bumbo. Bumbo. E pára. Repique na caixa. Ratatatá-tatatá-tatatá. É o carro dos gambé filmando tudo para a globo. Cléber Machado, de novo??? Uma banheirona funerária é o carro abre-alas. Ooolllaaa. Antes ele do que eu! Homenagem à velharada e ao deus Morfeu. Ébrios sonhos de fevereiro. Quem vai guiando a escola é o cortejo do enterro. Os foliões cantam de boca cheia: morreu Seo Prefeito, que se abrace com o capeta! E agora vai direito, com o samba no peito, só quem samba leva jeito! Agora tudo se acerta! Ê laia! Lalaiá! Bumbo. Bumbo. Bumbo. E pára. Apoteose? Sinal vermelho. Bi-biii, bi-biii. Seo Benedito se levanta, para cair de novo na festa!!!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Desconforme

Como pode a verdade
esconder-se nas costas
dos surdos pela vergonha
de estar certa?

Aquele que a escuta
jamais saberá.

Como pode o amor
verter-se nos rostos
dos mudos pela necessidade
de ser escutado?

Aquele que o invoca
jamais saberá.

Como pode a luz
insinuar-se nos sonhos
dos cegos pela incapacidade
de ser iluminada?

Aquele que a enxerga
jamais saberá.

Como pode o medo
encrustar-se nas goelas
dos açoitados pelo sabor
de ser venerado?

Aquele que o engole
jamais saberá.

Como pode a matéria
inchar-se nos corpos
dos mortos pela ironia
de ser novamente?

Aquele que a acaricia
jamais saberá.

Como pode o absurdo
contrair-se em epifânicos
segundos pela fortuna
de ser solitário?

Aquele que o pensa
jamais saberá.

Como pode a poesia
entrincheirar-se nos poemas
obscuros pela fragilidade
de ser tudo isso?

Aquele que a escreve
jamais saberá.

Em nome da Ciência

Me dê licença,
será que eu poderia
escavar você?

Farei uma pesquisa
e defenderei doutorado.
Meu objeto de estudo
é aquilo
que encontrarei
nos tecidos
entranhados
intestinos
e delgados

Por favor, me dê licença,
pois se não concordar,
eu consigo um alvará
em nome da Ciência.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Elemento

um elemento suspenso

radical livre


vestindo bandeiras
coloridas
de nenhuma pátria
além do sol

seu passeio
é moreno
e as sombras são apenas
um refresco concedido por deus

que sei lá não importa
porque a derradeira
nota quem toca é o sono

e se dorme ao vento
logo se acorda
num atmosférico encontro

quem se pega no ar
só se a chuva vier antes...

e se vier e não desgarrar
leva a calha do rio
para o fundo do solo

a bandeira
do céu se estende
de estrelas
e Aquijaz diz então
que não puderam se separar

Sentido

nem inimigos
tampouco aliados

não existimos mais
e o mundo está
como quem o vê

sábado, 16 de maio de 2009

Ao poeta

Ao poeta
puta que abre as pernas
para o mecenato miserável,
o tempo inteiro mastigado
em versos pomposos
e palmas dos homenageados.

Ao poeta
besouro que rola sua pequena
bolota de bosta pela sintaxe
malacabada do português.

Ao poeta
apresentador da globo que diz - Boa Noite!
com o semblante amigável
e ceroulas furadas por baixo da mesa.

Ao poeta
pombo que se alimenta
das migalhas
atiradas pelos velhos poetas
em sua rotina
desenganada pela poesia.

Recepção

Suba a escada e sente na sala,
o sofá é macio e eu ligo a televisão.

Não se importe que vou andando,
estou na cozinha e voltarei em instantes.
Trago qualquer coisa e a gente belisca.
A gente pode conversar um pouco.
Já volto!

Ei, pra onde você está olhando?

A gruta

Saberei quem será
quando chegares,

se o estridente
som alarmante
da campanhia
romper o sossego
da tarde de sábado iniciante
em insistentes
investidas contra a paz.

A Santa Paz e o sossego
de um homem!

Meu abrigo não é a gruta
em que sacias teus desejos.
Minha companhia não é
o fosso em que secretas
tuas perdições.

Digo a ti,
antes que venhas,
para não vires,
por favor.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um passo

(Ao meu amigo Rodrigo Alencar Bernardo)

Um passo avisado
um cálculo já calculado
e mesmo assim
um passo desavisado.

Os gritos ao longe
na multidão
de pensamentos
à torto e à direita
não são páreos
para os urros canoros
dos pássaros sobre
sua cabeça.

Avisado, sim.
Quem dera ter sido escutado.
Chegasse eu mais perto,
talvez
um abraço?

Descontroladamente mais perto em um forte abraço?!

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Amigo

Entre, amigo
Tome um trago.
Estava guardada na geladeira
há dias.

Ainda bem que você veio.

Ninguém estaria
aqui para bebê-la.
A casa está sempre vazia.

Ainda bem que foi você.

Eu não conseguiria tirar
as coisas de seus lugares.
A menos que caiam
desequilibradas pelos
movimentos de rotação.

Ainda bem que não foi isso.

Pelo menos assim
posso contar mais uma história
sobre o que não sei fazer.

Ainda bem que não há ônibus a essa hora.

Eu não fumo.
Mas pode acender.
Conte-me sobre ontem.

domingo, 10 de maio de 2009

Diálogo

há sempre
um encontro
marcado
quando as retinas
se tocam

conversas etéreas
são prolongadas
em badaladas anímicas
a cada era humana
de relógios desmesurados

dois espíritos
não passam
por acaso
na mesma
hora
da encruzilhada

há sempre
um velho assunto
a se tratar

o diálogo
é uma escada
até o céu

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Passou da hora

Estamos comendo demais, comendo demais.
Ei, moleque do norte!
Molha a terra com suor, o sol manda.
Larga esse pedaço de pão.
Lambe o chão,
a areia, a poeira.

Sem eira, à beira da seca, sorte, suja, sua morte.

Estamos com medo demais, com medo de mais.
Ainda assim, nada tinha sentido no oblíquo do mundo
e eu estou mudo demais.
É um absurdo!
De minuto em minuto,
façamos mais um ano de silêncio.