terça-feira, 13 de março de 2012

sem sair do lugar
levo a vida a correr
a morrer todo tempo
sem parar de nascer

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

meus olhos cerrados
inverso do corpo

e se tudo assim dissesse
dizer, que bastaria?

a cama e o quarto
se bastavam

catava moscas
em coçadas e sopapos

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

filho

hoje uso sua barba
e se a língua é distante
pelo menos o sorriso
também herdei

meu molde
é sua forma
mais esticada
pelo tempo

os pés entretanto
são meus mesmo
e sua a mão que segurei
pra andar

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

num clarão de ideias
irrompe a luz pelo cômodo
e a impressão de infinito
dissolve-se nos esquadros
até a mancha de tinta
dispersa no tampo da mesa

sábado, 15 de outubro de 2011

por falta de chão
construímos nosso
próprio hemisfério

em infinitas parábolas
de obviedade terrificante
erigimos metade de mundo

da matéria adjacente
colhemos sementes de neonatos
de ponta-cabeça pendendo
ao lustre

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

quando nos separamos
éramos iguais até a coesão
inerte de nossas casualidades

distanciamos uns aos outros
borrifados em personalidades
figuráceas sempiternas

às voltas de uma praça
as revoluções do circuito
deliravam de sufoco
vacuofeitas

da relativa lógica
amesquinhou-se a vida
como se fosse dividir

em que calendários
se rompe o encontro?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

nem de ferro sólido
nem de ar transponível

amor é feito o gosto
da ferrugem ao sol de domingo
precipitando ao chão
em gotas esparsas

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

é que certos
sujeitos
são pensos

pois foi em nosso
encontro inevitável
que a perguntei:

se eu dispusse de lâmina suficiente dura
se guardaria consigo meu reino
em sua couraça mineral
lenta ao tempo

a perguntei sem resposta
nenhuma, nem faces ruborizadas
só rústico semblante pétreo

se for esta uma resposta, espero

a perguntei por último

se ainda estupefato pela trombada
teimaria evitando diálogo

se nos sobra só o resto

tentei ainda nada
além de um átimo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ombros

ombros por toda parte
na estante da bolsa quieta
nas cobertas despejadas irregularmente
no canto preservado
do salão amanhecido

eu que tinha ombros
acordei estilhaçado
a ouvir amontoados
rangidos de novos ombros
permissivos

ombros ecoados de cima a baixo e ombros
dentro de outros ombros e outros ombros
nas cotas de ombros vitalícios