Arquivo pretensiosinho

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Presa

Seu primeiro erro foi me desejar. Antes disso, eu sequer existia. E pouco a pouco fui tomando consciência de mim. Eu era agora objeto de uma obsessão. Ele me queria, sonhava meus encantos e me desenhava, com os contornos de um felino exótico, caçando em florestas densas e misteriosas. Do breu e do nada riscaram-se minhas listras, cada qual um nome diferente de vaidade. E passo e passo, nenhum barulho desnecessário, senti-me poderoso. Fitei-o detrás da noite. Vi que esperava qualquer coisa, cada fogueira que acendia dentro de si era ainda mais ansiosa que a anterior. Confesso que no início tive medo do fogo. Mas seu cheiro de presa fácil e acoada era irresistível. Cacei-o, cansei-o. E percebi que quanto mais eu me aproximava, mais ele tremia, mesmo não sabendo ao certo de onde eu viria. Tinha, então, certeza. O medo temperava sua carne, e eu já não podia mais segurar meu bote. As garras tensas e os movimentos precisos. Um salto repentino. Todo o tempo do mundo no ar. Contemplei sua admiração ao ver que eu me tornara realidade. Uma realidade assim pesada, assim cruel, assim absurdamente terrível. Eu o amava, mais que isso, queria devorá-lo. Queria tomar posse de sua existência e torná-la parte da minha. Maldito seja o fraco que me criou, pois que minhas fileiras de dentes irão dilacerar sua carne e sua razão. Eu sou a fera do desejo, e quem me desejar deve pagar com tudo o que tiver e o que puder ter por tão efêmero erro. Sou também saudade e solidão. Sou distância e, se me aproximo, sou vazio e senão. Ele, que me ensinou o que é fome, é agora meu prato predileto. Começo pelas vísceras e passo ao coração. Em pouco tempo já sei falar e escrever, e tomo seu lugar. E cometo seu mesmo erro: qualquer vacilo de pretensão autofágica. Então eu sinto, eu que sinto!, o medo me rasgar de dentro pra fora.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Branco e preto

Outro dia expliquei a um desatento que o branco é formado de todas as cores e o preto é a ausência de cores. Não que eu tenha conseguido fazê-lo com muita propriedade, nem que ainda acredite nessas experiências e dados empíricos. Mas se eu teria de argumentar, que o fizesse por exemplum, segundo o que dita a tradição e os bons costumes. Afinal, tudo que é dito não passa de tradução e tentativa - Meu caro, comecei, não há bem sem o mal e vice-versa e, mais ainda, se queremos discutir alguma coisa, partamos do princípio de que não existe bem e mal. E que engenheiro viveria sem um ângulo de 90 graus? Que matemático? Que pragmático? Desculpem, amigos inflexíveis, morram de fome! Porque eu vou caçar qualquer coisa pra me virar. O fato é que é muito difícil convencer qualquer um que o amor é destruição... Mesmo Nietzsche não se convenceria, ele e aquela enorme cabeça-dura dele - Pois façamos assim: partamos um homem ao meio, e esperemos para ver qual das metades manifestará o bem e qual manifestará o mal. Se ambas as metades morrerem, ficamos e discutimos mais uma meia hora, tudo bem?!
decisão se toma num gole!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Que festa!

Quando o sujeito se abaixou no salão e logo se levantou, todo sorrisos, com um pedaço de croissant na mão, honrado feito uma coroa, exclamando: “o que não mata, engorda!”... Ah, ninguém tinha como prever o óbvio: a bala acertaria em cheio seu ouvido e pararia no meio de sua cabeça, fazendo uma sujeira sem precedentes, a qual a pobre assalariada da faxineira preferirá morrer a limpar.

Observei tudo do ângulo superior a meu ombro esquerdo, enquanto fingia interesse na conversa de uma representante alemã que queria arranjar parceiros no exterior. E ela observou a cena de um ponto privilegiado, suficientemente privilegiado pra que se calasse e espalancasse os olhos azuis feito uma sardinha estragada. Eu fiquei mais ou menos entre a queda e a sardinha... E como é sempre necessário ressalvar a histeria coletiva: bem, teve correria, gritaria, velha que desmaia, velho que se apoia nos seguranças e sai escoltado pelas bengalas, uma curtição! Pois o que era antes um museu de gestos, tornou-se uma verdadeira festa. Tudo porque um sujeito resolveu usar um ditado popular pra justificar certa falta de refinamentos. Eu não o julgo por sua atitude, aliás, bastante consciente se imaginarmos que há tanta gente no mundo passando fome... Bom, em certo momento tive que ir pra casa. Bati um papinho com o tenente antes, aí peguei um cálice de champagne e fui dar meus cumprimentos ao anfitrião: Que festa! Que festa! Olha, nunca vi uma tão animada!!!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Andei lendo alguns jornais e tenho certeza que, como qualquer imbecil que sabe colocar uma vírgula no lugar certo, eu poderia tecer comentários interessantes – e esta é uma das palavras mais específicas em meu vocabulário - sobre como os fatos reportados são repetitivos. A natureza é cruel, desde sempre. O homem não faz parte da natureza, desde sempre. Se dois mais dois são quatro, e a inteligência do leitor se limitar e este tipo de lógica cartesiana, então esses pensamentos não fazem o menor sentido. Mas se o leitor resolver que, apesar de tudo, uma vírgula bem colocada pode valer cinco ou dez minutos de sua longa e tediosa vida, convido-o a um brinde: ao sadismo humano! A natureza, por sua vez, não é sádica, é apenas simples demais, e sua essência vibra numa frequência que nós, pobres seres inteligentes, não podemos captar.

Andei lendo os jornais e assistindo a alguns filmes do Tarantino. É impossível resistir à tentação de dizer que se trata da mesma coisa. E aqui se confirma a ciência. Infelizmente não é possível confirmar a contradição de outra maneira. Talvez uma curva no espaço-tempo, o fuso horário, as transformações climáticas, que só agora se tornam tão aparentes, talvez uma dança despropositada ao som de um bolero, ou um corte no polegar enquanto se preparam os tomates para o molho. Sim, talvez identificar um padrão nas fibras da madeira morta e polida no guarda-roupas seja mais confortável que uma cama quente, mas eu ainda prefiro acreditar no caos. Questão de fé. Não cabe numa primeira página, apesar de seu caráter regular e nada inovador.

Bom, já não sei bem escolher entre as opções do meu parco latim, e também não sei até onde vou. Sinto que, de qualquer maneira, essa coisa de inflar os pulmões quase me mata de saudades - o que sequer deveria ter sido mencionado, visto que o leitor não resistiu.