Arquivo pretensiosinho

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A paz

a paz está dormindo
encostada no muro

um bocejo de motor
e nunca mais irá acordar

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Na manga

ontem eu tinha
um poema muito bom
guardado na manga

mas uma chuva filha da puta
encharcou minhas vestes
de lirismo patético

e pelo dom do automático
me entreguei sem querer
à máquina de lavar

agora pende no fio do varal
a camisa
sem teu
cheiro

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sem título

entre a fome que amarra o ventre
e a fraqueza que dá um salto sobre o naco
de pão-com-manteiga que rola padaria afora
a cada mês e meio

mais rápido que os pombos

é o sonho coxo
que se deita estabacado
no papelão duro

abraça o homem desbotado
como uma esposa banguela
lambe suas perebas
como um cão companheiro
desinfeta sua alma
como cachaça barrigudinha

e dorme escaldado feito pedra
sob o caos do meio-dia

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Cult

criticam
os que não escolhem

mas escolhem
não criticar
os que pelas
críticas alheias
constroem superfície
imensa de oferendas
em soberbo altar

sábado, 5 de setembro de 2009

Resposta

então deu de obedecer agora
às próprias regras?

como se fosse normal
não mijar nas calças
de vez em quando

se cagar todo
perna abaixo
êê laiá

coisinha geniosa

e que desobedeça agora
pra tu ver se o couro
come
ou não come.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Encontro

há que se perder
em dez minutos de atraso
e trazer entre os dedos um trago
a boca vermelha
e o lápis no olho

há que se perder
em dois tempos um olho
atrás da coluna de pedra ansiosa
deixar o trem
passar da hora

há que se pagar
um preço muito caro
e da bolsa de pano tirar um sapato
e vestir agora
em um cumprimento

olá, demorei?!
nem tanto