Arquivo pretensiosinho

terça-feira, 31 de março de 2009

Madrugada

É madrugada
e o blecaute
cobre o bairro
de breu

Paraíso dos vazios
onde animais andam à espreita

Mas um som estribilha
e reverbera sobre todos
inaudível
subjugando os seres
da escuridão
agora apenas
zumbis eunucos

Tento responder
ao chamado
com um sussurro
constrangido e então
um uivo de dor

E não há resposta
As palavras vêm de longe
e não podem me escutar
como eu as escuto
“...eu o perdôo por isso...”

Pergunto-me
onde foi parar?
Onde está você
esta voz inalcançável?
Por que me chama?
Por que eu?
Por que agora?

Seria mais confortável acender as velas
e permanecer quieto
no quarto
acompanhado da solidão
como se somente não houvesse pago
a conta de luz
Seria oportuno!

Mas não há luz no mundo inteiro
onde as piores bestas
andam em bandos e se alimentam
umas das outras

A solidão é um luxo
que não merecem

Os ecos aos poucos inflamam
como numa tortura chinesa
e esta voz dilacera
corrói
infecciona
piora
devora a merda que tem nas minhas entranhas
decompõe o meu corpo perambulante aos pedaços
procurando alma viva
que não há

Não há ninguém
para consentir
ou negar
e eu espero feito louco
por uma resposta
detrás dos vultos
ao meu lado

Eu já dei a minha palavra
e já não sei o que fazer
para dizer o que preciso dizer
e você escutar

Quem sabe até
não sou um deles?

segunda-feira, 30 de março de 2009

Esmola

Eu poderia tá matando
Eu poderia tá roubando
Mas eu infelizmente
tô pedindo
uma ajuda
Um real cinqüenta
centavos
dez
qualquer quantia
que vosso coração
mandar

Aos que puderem
ajudar
e aos que não mas que
com a
graça de Jesus
amanhã
certamente
poderão

Que Deus vos
abençoe
e vos proteja

Traduzioni - Giuseppe Ungaretti

Senza più peso
a Ottone Rosai
1934

Per un Iddio che rida come un bimbo
Tanti gridi di passeri,
Tante danze nei rami,

Un’anima si fa senza più peso,
I prati hanno una tale tenerezza,
Tale pudore negli occhi rivive,

Le mani come foglie
S’incantano nell’aria...

Chi teme più, chi giudica?


(Giuseppe Ungaretti – Vita d’un uomo)


Sem mais peso

a Ottone Rosai
1934

Por um Deus que ria como um menino,
Tantos gritos de pássaros,
Tantas danças nos ramos,

Uma alma se faz sem mais peso,
Os prados têm uma tal ternura,
Tal pudor nos olhos revive,

As mãos como folhas
Encantam-se no ar...

Quem teme mais, quem julga?

Lacrimogêneo

farelos
ao vento
lacrimogêneo
soprando nômade
pelos recantos
- espalhando aleatoriamente
rajadas
de restos orgânicos
memórias carbonizadas
de um passado
presente

concreto
de muros inexistentes
matéria em cinzas

lágrimas em pó
gemendo
entre os vãos
dos vultos
ao redor

domingo, 29 de março de 2009

Beijo

Vontade
além do corpo.
Lábio em alma
viva.

Suavidade
determinada.

Displicência
incontrolável.
Honestidade
irreprimível.
Manifestação
incrível.

Veículo
de conversas.
Linguagem
do espírito.

Boca a boca.

Trato

Sem promessas,
favores trocados
apenas.
Acordo amistoso.

Trato, único trato
que permanecerá
até o próximo
encontro.

Conversas,
conversas,
horas a fio
desconexas,
agradabilíssimas
conversas.

Eu supondo
desvendar
o que pensas,
de onde vens,
o que te importas,
do que te encantas,
o que te acanhas,
e o que dizer
quando chorares.

Até mais!
Até mais!
A gente se fala.
Se vê.

sábado, 28 de março de 2009

Traduzioni - Giuseppe Ungaretti

Mas o que eu esqueci de dizer é que, se a meia-meia-dúzia de vocês que me lêem quiser, também posso comentar as traduções. Aliás, isso seria maravilhoso. Inclusive tem uma que eu anseio por destacar. Vediamo il poema e doppo possiamo vedere la traduzione ed i miei argomenti:

Noia

Anche questa notte passerà

Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull’umido asfalto

Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sonno
tentennare

(Giuseppe Ungaretti – Vita d’un uomo)


Tédio

Também esta noite passará

Esta solidão ao redor
titubeante sombra dos fios viários
sobre o úmido asfalto

Vejo as cabeças dos cocheiros
no cochilo
escorregar


Bem, o primeiro verso é simples e não tem muito segredo, já o segundo verso do poema complica quando aparece esse tal "in giro", que eu poderia ter traduzido como "por aí", entretanto perderia a característica letrada, erudita, do discurso do poeta.
O terceiro verso também é complicado, pois a noção de "fili tranviari" não é familiar para os brasileiros, agravando-se ainda pelo fato de já não haverem mais bondes circulando regularmente no Brasil, se bem que em Santos dá para ver pelas ruas os tais fios viários do bondinho turístico local.
Agora, o grande pega se dá na última estrofe. Felizmente (ou não) em Português temos "cocheiros" e "cochilos", palavras com etimologia diferente (penso eu como pretenso latinista) e com aliterações fantásticas. A sorte foi não haver na nossa língua nenhuma expressão como "meio sono", quer dizer, o termo é compreensível para nós, mas as pessoas preferem dizer "cochilo" a "meio sono".
E a cartada final: como traduzir "tentennare" em uma só palavra, recuperando a sonoridade imposta pela métrica? Segundo "il Sabatini Colleti", dicionário italiano muito respeitado, com versão digital dispoonível no link http://dizionari.corriere.it/dizionario_italiano/T/tentennare.shtml :

tentennare
[ten-ten-nà-re] v. (tenténno ecc.)

• v.tr. [sogg-v-arg] Fare oscillare lievemente qlco. SIN scuotere: t. il capo

• v.intr. (aus. avere) [sogg-v] Traballare, oscillare per mancanza di stabilità SIN vacillare: il palo tentenna; in senso fig., essere incerto, esitare sul da farsi; oscillare fra pareri discordanti SIN tergiversare

• sec. XIV


Blá, blá, blá, enfim... A parada foi tentar recuperar esse movimento contido pelo verbo "tentennare" e ao mesmo tempo manter as características sonoras do verso, então a saída foi recuperar o movimento do balanço com o movimento de uma cabeça que "escorrega", pois escorregar é também um movimento, um pouco mais lento e menos oscilante. A pergunta é: por que não usar "chacoalhar", e a resposta é: exatamente pelos motivos semânticos e sonoros que já citei, sem contar que chacolhar é brusco demais...

That's all Folks!!!

Traduzioni - Giuseppe Ungaretti

Bom, resolvi também postar alguma coisa séria, quer dizer, algo que pretende-se sério acima de tudo: algumas traduções que andei fazendo de poesias italianas. A grande parte das traduções é de poemas de Giuseppe Ungaretti, um ermetico extremamente influente na poesia italiana do início do século XX. Ele combateu na Primeira Guerra e no final da vida tornou-se um cristão fervoroso. Dizem até que era simpático ao fascismo, o que eu não acredito, pois penso que alguém tão transcendental não iria ater-se a questões menores do ser humano, como a política. Um poeta como Ungaretti só pode mesmo buscar a poesia e viver de poesia, ou, interpretando algumas de suas palavras, "sangrar poesia". Adesso vediamo:

Nasce forse

C’è la nebbia che ci cancella

Nasce forse un fiume quassù

Ascolto il canto delle sirene
del lago dov’era la città


(Giuseppe Ungaretti – Vita d’un uomo)


Talvez nasça

Esta névoa que nos cancela

Talvez nasça um riacho logo lá

Escuto o canto das sereias
do lago de onde era a cidade

O amante

Não espere na porta.
Espie pela janela
ele chegando
a cambalhotas.

Deixe ele entrar
e permaneça
quieta.
Agarre depressa
o fio do telefone.

O bobo
sentará na
poltrona
sem mesmo notar
seu perfume
entre as cortinas.

O comportamento
é previsível.
Irá cochilar
imediatamente.

Aproxime-se
cautelosamente
e enforque ele
sem remorso.
Ele merece.

Estarei a um
quarteirão
abaixo
aguardando
ansioso,
meu amor.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Petição privada

Valorização pública
política
aparelhada

Poderosa influência
sanitária
ovalada

Calamidade mercantil
mortalha
previdenciária

Redundância temporal
econômica
publicitária

Apelação estomacal
ergonômica
agrícola

Fétida medida
emergencial
necessária

O mar

à frente o mar

um passo
um abismo

a queda terrível
de duzentos e cinquenta e nove metros e meio de altura

contra as pedras
afiadas

um tapa de brisa
enferruja o sangue e
o corpo teso se
encurva
range e
pula vertiginosamente

a queda suave
da pena da gaivota na ausência de sons e pensamentos

em toda parte o mar
o gosto doce de
fazer parte para
sempre do mar
e ser o mar
diluído
nas espumas
frisantes
do mar eterno
mar

Vinícius

Eu nasci primeiro
que Vinícius
meu irmão

Mas nós
moramos juntos
na barriga
da minha mãe

Eu conversava
com ele e dizia
que ia primeiro
que ele
porque eu era
o mais forte

Ele emburrava
corria atrás de mim
me dava dois socos
que nem doíam
e dizia
que ele era
o mais forte

A gente ria

Mas enfim
olhei para trás
meu irmão
fez que sim
e eu vim

sexta-feira, 20 de março de 2009

Enfim...

Gastarei um post não com mais um poeminha medíocre, cheio de intenções frustradas e hermético, mas sim com algo que realmente vale a pena, uma das únicas expressões nesta língua que consegue abranger quase tudo que anda se passando comigo:

MAS QUE MERDA!!!

Alguém se identifica?

terça-feira, 17 de março de 2009

Seu rosto

Anseio louco por
atravessar toda a cidade
alagada
no trânsito febril desta
chuva gelada
Só para ver
se vale a pena
acreditar
que o trem ainda não partiu

Sair agora
esquecer a porta
e bater as chaves
cantarolando seu nome
em busca de
uma prova rítmica
etimológica
um traço místico
marco simbólico
um rastro animal
que indique
que há algo gentil
no seu
rosto

Eu correria com rosas na mão
espalhando pétalas vermelhas
do Tucuruvi
à Consolação
Mas as águas as carregariam
para o fundo do Vale do Anhangabaú
antes que você
pudesse vê-las chorar ruborizadas
sob as gotas catastróficas
de São Paulo

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sobre o tempo

Soberano da seqüência infinda do suceder
inevitável

Devorador paciente
implacável
de rugas e recordações

Testemunha vitalícia sob proteção
do ritmo juramentado
na instância
das sétimas badaladas
do caos
divino

Absoluto
Cruel
Necessário

Riacho cosmógono da saudade

Não há mais espaço para
o agora
- urgentíssimo tão logo de porvires adiados para depois
deste ou de outro sábado de verão

Futuros programados
para despertar pela manhã

Anseio virgem
por um cartão postal

quinta-feira, 12 de março de 2009

Versinho

Casa de ferreiro,
espeto de pau.

Cultivo a dor,
pra não sofrer deste mal.

Presente

Eu ganhei um presente
jogado
no chão

Achei para mim
Recolhi
com o cuidado
de ambas
as mãos

(Comigo a chuva
não poderá afogá-lo
e as rajadas de areia
não irão enterrá-lo)

Os fatos
trouxeram
o pedaço
de memória
de histórias
de alguém

Guardei para mim
pensando em como
aproveitar o pouco
que sobrou

E quando houver sol
irei mostrá-lo por aí
sem dizer quem
achou nem esperar
que perguntem
para eu responder
que estava
ali e que tomei
do acaso
que fiz o todo
das tripas de um
pedaço
Sem julgar
ou sentir
compaixão

Sem culpa
sequer razão
para o resto de
céu
que achei deitado
como um anjo sujo
no chão

quarta-feira, 11 de março de 2009

Maço

(trago cigarros
no bolso
e sombras
às costas)

Talvez de cima
de uma marquise
ou de um poste
de lâmpada
ainda
mais alto
eu pudesse
me enxergar
na multidão

Queria ver
o meu rosto
nas possibilidades
de rostos,
nas silhuetas
presentes,
no movimento
constante
dos passos por aí

Talvez estivesse
com um amigo
ou desconhecido
vindo da Espanha,
ou sei lá,
e pudesse enxergá-lo
antes de
me identificar


(dou um trago
e vejo no verso
do maço
a minha foto)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Trincheira

A brisa brinca
nas copas
das árvores
esfolhando sons
amenos.
Sorrateira,
adentra
minha trincheira
e acaricia
meu fuzil
adormecido.

Da vala em que
me escondo
observo o manto
negro salpicado
de fissões nucleares
onde quero
deitar.

Mas o silêncio sinuoso
dos bordados estelares,
como um estampido
de pensamento,
me acorda
amedrontado.

Nestes tempos
é impossível
cochilar.