Arquivo pretensiosinho

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Jonas.

Pelas frestas da janela de madeira os raios de sol entravam e iluminavam alguns filetes paralelos no chão do quarto. A luz refletia-se para o resto do ambiente e fazia com que o último sonho da noite se dissolvesse lentamente, como que se misturando aos poucos à realidade da manhã. Jonas acordava em suaves solavancos, conforme a luz o obrigava a se revirar na cama. Nenhum despertador soava. Era domingo.

Ao acordar, o costume de Jonas era ficar logo sentado na cama, e espreguiçar-se com vigor. Para descer ao chão, o pé direito era sempre o primeiro, inaugurando assim, a série de pequenos rituais cotidianos, que iam tornando-se necessários como o ar. Antes mesmo de tocar os chinelos, Jonas tateava ligeiro e certeiro os óculos que sempre deixava no criado-mudo, ao lado da cama de casal. Óculos indicados para descanso e leitura, mas que Jonas fazia questão de usar durante todo o dia.
Apesar de tanto espaço sobrando em seu quarto, nenhuma companheira compartilhava de seu leito regularmente. E em dias de chuva, Jonas era sempre o responsável por abrir as janelas do quarto, pois que a empregada não entrava em seu quarto e nem o incomodava enquanto ele não desse algum sinal de que havia acordado.
E ocorria que cada dia tornava-se mais ritualístico que os anteriores. Tomar banho, por exemplo, significava ter cuidado especial com partes particularmente sensíveis à sujeira, como o vão dos dedos dos pés, os órgãos e atrás da orelha: algumas meias-horas depois e a tarefa era cumprida. O evento acontecia três vezes ao dia: pela manhã antes de qualquer coisa, à tarde após a sesta, e à noite antes de assistir a algum filme antigo de sua coleção.
A coisa chegou a tal ponto que uma boa desculpa para a caminhada dominical era o jornal de domingo, que Jonas buscava religiosamente na banca do Martins, a duas quadras de sua casa.
“- Em dias de chuva, o guarda-chuva; Em dias de sol, um boné, oras!” - dizia o falecido Dr. Sebastião, que vivo seria conhecido por precavido, e digo também - em razão de escrúpulos econômico-precatórios - pai ausente de Jonas.
O mineiro Martins lembrava um pouco o paulista Dr. Sebastião, pois, coincidentemente, tratava a Jonas como a um cliente. Jonas retribuía a atenção sendo fiel ao comércio do mineiro, e era demonstrando isso ao jornaleiro que suas conversas ultimamente viviam cheias de citações dos artigos publicados pelo pai, bem-sucedido advogado e jornalista (se é que é mesmo possível uma única pessoa exercer as duas funções), mas repetidos assim: de uma maneira ainda mais vazia que os originais.
Os hábitos alimentares também se refinavam criteriosamente. Nos últimos cafés da manhã, Jonas costumava tomar um suco de caixinha, variando os sabores entre laranja, uva, abacaxi, manga e pêssego. Cinco era um bom número. Algumas fatias de presunto e de queijo, geléia de amora, manteiga e requeijão combinavam-se aleatoriamente com as fatias de pão-de-forma, que Jonas às vezes pedia para torrar, às vezes não. Se comesse pão torrado, o suco era preferencialmente laranja ou manga. Se comesse pão normal, era bom mastigar também alguma fruta. Queijos eram bem-vindos.
Para a tarefa de servir a mesa, Jonas dispunha também da empregada, um ser mal pago para dar suporte e auxiliar nos caprichos do patrão. Ela ficava calada o tempo todo, e Jonas podia ouvir jazz antes do almoço, enquanto lia o jornal.
Um pouco de Ella Fitzgerald, My man, poderia influenciar e decidir definitivamente se Jonas começaria a ler o jornal pelo caderno Metrópole ou pelo Caderno 2. Algumas vezes tirava os olhos de cima das grandes e desengonçadas páginas do diário para colocá-los em algum canto da casa, de preferência um rodapé qualquer. Após a leitura, limpava os dedos em um guardanapo de pano, bordado com capricho, que sempre ficava na mesa de centro de sua sala, exatamente para que Jonas removesse a tinta das páginas que havia grudado em seus dedos.
Há alguns meses seu gato havia sumido e Jonas preferia sentar-se na poltrona e, deste modo, deixar o sofá maior para caso o bichano voltasse. O gato era Adamastor, e vivia arruaçando pelo condomínio, o que ia de encontro com a comodidade e privacidade dos vizinhos. Assim, havia aqueles que odiavam o bicho, e para Jonas não eram problema... Mas ele suspeitava mesmo era das últimas crianças que passaram as férias na casa da avó, uma viúva velha, vizinha sua. Elas adoravam o mascote, carregavam-no para cima e para baixo no colo e lhe fazendo carinhos. Jonas observava tudo de longe, da janela de seu quarto, e seus olhos retiravam toda a umidade da cena vista por trás do vidro muito limpo.
As pessoas pouco viam Jonas fora de sua casa, e sabiam que se tratava de um homem ocupado, porém respeitoso, já que não tinha cara de quem se ocupava de atividades desconfiáveis. Jonas correspondia esse respeito com um bocadinho de orgulho, que geralmente deixava estacionado na garagem de sua casa. Em domingo que fizesse um bom sol, ele mesmo lavava sua Mercedes, que conquistara, e isso é bom dizer, por mérito próprio.
“-Ainda há muito a conquistar.”
Algumas ideologias eram necessárias para sustentar a atuação de Jonas, e as suas opiniões cautelosas geralmente acabavam embalando e encantando alguma moça, que invariavelmente terminavam como presa em sua toca, chamada Lar. A Mercedes era apenas o meio de transporte mais seguro e confortável que havia para trazê-las à sua casa. Jonas era precavido, e evitava o envolvimento em se tratando do sexo oposto. Apenas um saudável relacionamento profissional entre ele e as mulheres.
Mas era o seu apreço por cachaças de produção limitada que o fazia ter alguma conversa mais profunda com as secretárias do escritório. Algumas gotas de prosa sobre o alambique também eram derramadas com o mineiro Martins, mas os dois jamais haviam bebido juntos. Jonas preferia a degustação solitária, em busca dos resultados mais primordiais da arte de produzir o elemento etílico...

Neste domingo, esta ordem de coisas levaria um sutil tropicão.
A luz refletia-se para o resto do quarto e fazia com que o último sonho da noite se dissolvesse lentamente, como que se misturando aos poucos à realidade da manhã. Jonas acordava em suaves solavancos, conforme a luz o obrigava a se revirar na cama. Nenhum despertador soava. Ao acordar em silêncio, mas com um zunido na cabeça, Jonas deu um pulo da cama, sentiu seu estômago revirar e não buscou os óculos, pisou primeiro com o pé esquerdo e não pensou em abrir as janelas, desceu até a sala esfregando os olhos e encontrou o gato Adamastor estripado em cima do sofá maior, banhado em sangue coagulado. Os olhos do bichano estavam abertos e amarelos, um amarelo que sempre combinou com sua pelagem alaranjada. Na poltrona havia um par de luvas sujas, um guardanapo de pano meio tingido de vermelho, uma faca limpa e uma lata de comida para gatos aberta, fedendo para as moscas. Jonas sentou-se, observou a cena mais alguns instantes, acariciou o pêlo do bicho com leveza, olhou para a janela demoradamente e lembrou-se de subir para abrir as janelas do quarto e tomar um banho.

(08/10/2008)

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A ponte.

- Mas o que você está fazendo aqui?

Uma fumaça muito escura toma a extensão da ponte, e não só da ponte, do bairro, da cidade, e fede a borracha e a gasolina queimada, um odor nauseante, misturado a outros odores sintéticos e orgânicos, vindos do córrego imundo, onde bóia o lixo descartado pelas indústrias e habitantes. Porcos! Das tubulações às margens jorram os líquidos podres, vindos por baixo da terra das construções fálicas que jazem próximas, plenas de crianças com doenças respiratórias e de adultos viciados em cheiro de combustível queimado de seus veículos, gás carbônico. Veneno. Neste ambiente, o céu de chumbo é onipresente. O mundo fede muito, ardem as narinas, a boca fica seca, os olhos coçam. O homem caminha pela ponte sobre o rio decrépito, pensando em tudo isso e ainda preocupado com o início do mês. É dia 31 de julho e amanhã será agosto, mês do desgosto, para fazer uma rima e não encontrar solução. O salário é pouco e aos poucos o homem caminha sobre o vestido branco de sua esperança e o vai manchando com a sujeira da sola de seus sapatos. Nem pensa naquela mulher de hoje mais cedo, não consegue pensar em nada de muito préstimo, nada que lhe agrade, e nem olha para o chão, só quer saber de chegar do outro lado da ponte, e sair logo de perto deste rio imundo. Mira o fim da lástima, do outro lado do rio, falta pouco, sempre falta pouco. Atrás de mim uma voz grita agoniada...

- Mas o que você está fazendo aqui? Que maldição! Já falei para não ficarem andando por aqui! Já falei para todos vocês irem embora daqui! Por que está me olhando? Vai...

Vai se foder. Tanto faz. Não será mais um demônio deste inferno que irá piorar o dia. O homem se vira, sem grandes consternações, e continua a caminhar, depressa, quer chegar logo ao outro lado. Só tem doido aqui mesmo. Mais alguns passos e a ponte parece cada vez mais longa, não tem fim. Caralho! Tinha que ser hoje, aliás, amanhã vai piorar. Tem as coisas que a Lurdinha pediu. Ainda assim, os pés aceleram, porque amanhã tem que chegar logo, tem que começar logo o mês de agosto, para acabar logo o mês de agosto. E todos os meses deveriam acabar logo. Aliás, que importa também? No dia primeiro de janeiro é necessário trabalhar. Peão que é peão se fode, meu irmão! Há muito tempo que a esperança é uma dama nua, que não tem casa e vive na rua, nesta sujeira, nesta imundície, implorando por uma esmola, e acostumada com as poucas moedas que chegam das mãos sem calos de quem não precisa passar a pé pela ponte, sonhando com os trocos mais gordos que virão. Às vezes a esperança se prostitui, não consegue muito, já está toda esfarrapada, alguns poucos vêm, fazem como querem e deixam uns dinheiros amassados. E o encarregado? Caralho, de novo! Porra! É todo dia a mesma encheção! As pessoas estão alienadas, umbiguistas cobertas por suas pequenas e cada vez mais minúsculas carapaças a que chamam de apartamentos, de casas. Grades. Vivem entre as grades, gostam de barras de ferro e de tetos com decorações em gesso, e de quadros que nada dizem nas paredes cheias de prateleiras com livros “cheios de palavras que eu sei que nunca vou usar”. O encarregado só quer isso mesmo. Quer também sair na sexta-feira para o bar, encher a cara, pegar a loira rabuda e se mandar para um motel, depois diz para a mulher que teve que fazer hora extra. Hora extra, hora extra, se ele vivesse a vida que vivo e tivesse os caprichos da Lurdinha para satisfazer, ele veria o que é uma hora extra, muitas horas extras. Nenhuma hora extra, para falar a verdade, por que nada sobra, nada é extra, nenhuma hora, deve-se dormir e trabalhar, e dormir e trabalhar. “O trabalho liberta”. Na entrada de um campo de concentração nazista estava escrito, em letras absurdamente reluzentes, liberdade? Isso é escárnio. Tanto faz... O fim da ponte se aproxima, e agora muito próximo. Pronto, está acabando esta ponte. Fedor maldito, rio maldito, monte de bosta, prédios malditos. Loucos malditos. Quem sabe eu não paro com essa reclamação besta quando chegar do outro lado. Pareço um velho. Lembro-me daquela mulher, aquela que vi no refeitório, um anjo, seu rosto com traços finos, seu sorriso cativante, seus movimentos graciosos. Irradiava luz, era linda, um sonho, um anjo. Dava uma paz. Amanhã descubro o setor dela, ela sim...

- Seu filho duma puta!...

Uma pancada na cabeça seguida de um barulho surdo derruba o homem. Foi acertado com um taco de beisebol. Na nuca, mal soube o que aconteceu, desabou todo torto no chão. E ficou lá. Um pouco de sangue sob a cabeça. Estaria ainda pensando na Lurdinha e as coisas que ficava pedindo? Na esperança? Na sujeira? Tanto faz. Era assim que pensava: tanto faz. E tanto fazia. Jazia ali. E não sentia mais o fedor daquela bosta toda, e os encanamentos e os carros não faziam mais sentido. A imagem do anjo como uma foto instantânea eterna, um flash para sempre. E o outro gritava.

- Não vai sair, não? Não vai sair daqui seu desgraçado? SAI DAQUI, SEU DESGRAÇADO! SAIDAQUISEUDESGRAÇADO!!!




(20/08/2007)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Lágrima.

Eu andava por aí naquele dia. Estava assim, ao acaso, em busca de algum sentido para estar andando. Só observando tudo ao meu redor. Pulava de calçada a outra, passava pelas faixas brancas pintadas para os pedestres. Às vezes, só por ter aparecido a oportunidade, lançava-me no asfalto negro e atravessava a rua correndo. Os carros buzinavam. Eu não tinha um guarda-chuva.
O dia estava nublado e os passantes cuidavam de não pisar em poças d’água, não poderiam molhar seus sapatos, mas pouco se importavam se os guarda-chuvas acertassem os outros guarda-chuvas ou os olhos de outros passantes. Nem olhavam para os outros passantes. Normal. E eu só andava.
Quando chove as pessoas ficam meio assim-assim. Eu, que estava em horário de almoço, tinha resolvido caminhar, não importava que chegasse atrasado, estava com tudo pronto, em dia. Meu lema é não dar pano para manga. E aquela chuva me recordava alguma coisa meio vaga.
Quando chove todos ficam mais introspectos, eu é que não quero parecer chato. É que mesmo vendo tudo acontecer por estas ruas sujas, faltava algo, sabe? Estava tudo bastante morno. Nada de novo. Era sempre a mesma cara, em cada rosto que eu não via, em cada corpo, em cada um que passava, nos cachorros, nas calçadas, nos prédios espelhados e enormes que não tocavam o céu, que nunca eram grandes o suficiente. E eu, e tudo, submetidos aos caprichos da chuva que caía rala e intensa. Via as mãos brancas, as escuras, as mãos com luvas, que carregavam guardas-chuva. Alguns conversavam, mas eu só conseguia perceber sua boca se mexer, e apenas isso, pois passavam por mim. Eram vultos, borrifos d’água. Não via os olhos.
Eu creio que andava perto do centro, na hora do almoço, ao contrário do caminho pelo qual se chega aos restaurantes baratos. Eu ia à direção oposta, alguns também o faziam, mas logo encontravam seu destino, os endereços que procuravam, os bons restaurantes, ou sei lá eu. Eu até tentava reparar mais em alguns passantes, mas eles não faziam nada demais, era só caminhar rápido com seu guarda-chuva, e entrar nas pequenas entradas de grandes edifícios comerciais, ou nas cantinas, ou em qualquer outro canto.
Dentro de mim não havia rumores, nenhum barulho, nenhum som, nada passava estridente pela minha cabeça, mas só um vazio. Não sei. Era pouco demais com o que se importar. Penso hoje, eu estava limitado, eu não sei, mas creio que fora aquela chuva. Eu andava por aí, e não contemplava nenhuma construção memorialista, nenhuma estátua, ou busto, nenhuma vitrine ou propaganda publicitária, não olhava para as placas que indicam os nomes das ruas, não sabia que ônibus eram aqueles que passavam. Eu apenas andava. E procurava saber o porquê de mais nada. Só tentava um lance de olhos para os rostos alheios, mas não fisgava nenhum olhar ou gesto.
Acho que andava meio cansado mesmo. Nem quente, nem frio, e eu não podia reclamar. Não por que havia escolhido que fosse daquela forma, mas por que já havia feito tudo que poderia, em tempos mais vermelhos e mais verdes, em horas mais sombrias e nas mais esclarecidas. Se fosse para escolher a melodia perfeita ou a poesia perfeita eu escolheria o silêncio inerte e a página em branco. Mas por falta de opção, já que nada do que havia por perto poderia expressar aquilo que eu não sentia. Que me vale continuar a andar? Só mais uma questão sem resposta. Eu andava a procurar respostas, mas sabia que não poderia...

...então olhei para uma vitrine que refletia um rosto que derramava uma lágrima e no instante da lágrima no momento exato em que caiu a lágrima eu vi refletido todo o evento na vitrine a lágrima escorria pelo rosto feminino de traços tão suaves aquela gota d’água descia insinuando-se pela pele morena da mulher continha todo o mundo e todos os rios do absurdo na lágrima prateada eu vi quando escorreu acompanhei todo o trajeto e parecia que quando caísse quando fosse lançada ao ar pela sinuosa curva do rosto que daria no pescoço moreno tudo aconteceria tudo estaria bem mais claro ou bem mais verde aquela lágrima ia juntar-se à composição amena da brisa da tarde de primavera e às poças do chão cheias de pássaros azuis e amarelos e surgiria um manancial no meio da calçada e as pessoas iriam sorrir e conversar umas com as outras e os vultos entre os borrifos iriam tornar-se formas claras e bem contrastadas e todos iriam se jogar em saltos ornamentais e barrigadas naquele lago de águas cristalinas e puras que se formaria faria sol sem jamais sem meio-dia fustigante e o rosto dela permanecia quieto calado sob os lábios grossos calados o nariz numa respiração decidida e contínua ameaçando um movimento que não ocorria e nenhum movimento do corpo e a vitrine me mostrava que os olhinhos se mexiam de um lado para outro em movimentos rápidos a garota não deveria estar procurando sapatos nem estaria como eu procurando o que nem sabia estava decidida piscou os olhos algumas vezes e eu não me mexia estava travado em minhas pernas ela ficou parada ali e sua lágrima carregava a dor mais profunda estática irreversível a dor abissal o sentimento enfim o que valia o mundo e a vida eu vi aquela lágrima pelo espelho a imobilidade era o eterno e não importavam sapatos nem vitrines era só um olhar perdido e fixo pelos ardis pensamentos um corpo enganado pelos sentimentos mais puros daquela pequena eu parado já não andava e nem respirava enfim estava ali parada o que eu procurava mas não sabia ainda o que era. Eu só sabia que havia encontrado...

Hoje eu sei, uma aproximação teria estragado todo o evento. A garota levou a mão ao rosto, talvez para enxugar a lágrima, partiu para dentro da loja, falou com o vendedor, tirou da bolsa alguns cartões, escolheu um. Apontou para um sapato. Agora com uma expressão de felicidade vazia. Pegou um pacote e saiu, andou um pouco sob a marquise da loja, abriu o guarda-chuva e perdeu-se na multidão. Talvez não fosse uma lágrima, talvez uma gota de chuva, esqueci-me do borrifo. Sem drama, sem final feliz. Resolvi voltar do horário de almoço.



(28/08/2007)

As gerações do Romantismo Brasileiro - Matéria inicial

Não tenho muita intimidade com esse negócio de blog. Na verdade nunca gostei muito disso, e não sei o que me levou a querer montar um blog agora. Talvez seja a tremenda falta de um tanque de roupas sujas para lavar... O importante é que agora me vejo obrigado a repetir todos os clichês de blogs aqui, mas e daí? ninguém vai ler esta página mesmo, tem tanta coisa mais útil (e mais inútil) para se ler na web hoje em dia... Certo?!

Bem, semestre passado tive aula com o melhor professor de Literatura de todos os tempos, Excelentíssimo Sr. José Antônio Pasta Júnior (que, aliás, por motivos de uma grave doença, acabou ficando com seqüelas graves no poder de avaliação, e me deu um 10), e o Signor Macarrone tratava do Romantismo no Brasil, período fundador da Literatura Nacional verde-amarela ( e artigo fundador da minha incursão opiniosa no mundo virtual).
Cheguei a algumas conclusões bem interessantes durante suas aulas. Por exemplo:
1 - É impossível a voz humana conseguir fazer-se ecoar por uma sala enorme, com uma centena de alunos, e sem o auxílio de um microfone;
2 - Quando outra centena de alunos resolve batucar e fazer festas bem ao lado da sala, fica mais impossível ainda;
3 - Se isso ocorrer, o professor irá ficar irritado, mas logo ele entra na dança;
4 - Devido a uma fossa aberta ao lado das janelas da sala, minha memória sensorial diz: Romantismo cheira à merda;

Todavia, esse não é o tema sobre o qual me propus escrever... Vamos logo às gerações do Romantismo Brasileiro, que são três:


1ª Geração: ligada ao Estado, geração dos que são a favor das incursões militares, da expansão do (miserável) território e da constituição oligárquica;

2ª geração: ligada à burguesia, é íntima dos ideários da Revolução Francesa, politicamente correta, e fica o tempo todo inventando índios europeus e tentando abolir a escravidão (pelo menos isso é bom);

3ª geração: Geração EMO (liderada pelo vocalista virgem de bandas Emo, o chorão Álvares de Azevedo).


Bom, é isso, por enquanto... Quem sabe logo outras considerações de minha mente fértil poderão vir ao papel(?) e decorar os cantos de sonolência estática da vida dos que lêem esta porcaria. Se é que alguém lê...

Aceita um uísque?

Aceita um uísque? Claro, cerveja, sem problemas. A moça está com a cara amarrada, em uma noite tão bonita? Ahn, sim, a solidão! Nem me diga! Mas agora estou aqui. Sim. De um gole só? É, a primeira da noite é só para aquecer. Está com frio? Então chegue mais perto... Assim está bom! Nunca te vi por aqui, é nova? Mais uma. Prazer, Fernando, pode chamar de Nando, não tem problema. A donzela é muito bela, bonita mesmo, já pensou em ser modelo de revista? Hahaha. Mas esse pessoal não entende nada de nada mesmo! Como assim? Ahn, e depois te dispensaram? Sacanas. Não, não. Pois é, trabalho sim, escritório. Mas não é aqui perto, não. É lá no bairro do Limão. Vou de carro. Pois é, não, no trânsito não, nunca fiz. É complicado, o guarda pára, o pessoal percebe. A não ser que tenha alguém dirigindo. Sim, sim. Um dia a gente faz. Já vi isso na internet. Acontece, sim. Não tem computador?... Ponho sim. Lisa tua perna, macia, pele sedosa, gostosa. Não, moça, não. Pois é. Horas. Fico horas. É, sou solteiro, moro só, aqui perto. Não, não digo. Só sei teu nome e nem sei se sei o nome certo. Te levo lá qualquer dia. Mas conta para mim essa história. Do Rio de Janeiro? Mas você não fala que nem carioca. Haha. Morava onde? Ahn sim, Ipiranga, São Paulo. Está certo. Não conte mentira, tenho faro para mentira, conheço mentira de longe, sinto o cheiro ruim. Não, não, você cheira bem. Muito bem inclusive, aqui no cangote. Hum. Toda cheirosinha. Agora, fala sério, estava triste por quê? Não faça assim. Está bom, não quer falar, não fala. Sim, mas eu não falo é porque sou paulistano, né? Aqui é todo mundo meio receoso. Nasci na Lapa... Sim. A violência está cruel. Esqueço, esqueço sim. Não, sem violência, não vou te bater, só umas palmadinhas, para você aprender a se comportar. Levada, sim. Aqui atrás, na cantinho escondida com a cara emburrada, só para chamar a atenção. Não, frio não, calor! Acha graça? Também acho. Pois é, estou bebendo, mas estou de boca seca. Estou seco, uma secura danada. Não? Molhada? Hum. Aqui? Hum. Não, não estou olhando para ela, não. É só para você que eu olho. Claro. Gostei de você. Que dia que você vem aqui na semana? Sim. Pois toda sexta-feira eu apareço. Como assim? Agora. Não, não, não vai não. Chega mais. Mais uma cerveja aqui para a dama. Gelada. Para mim mais um uísque, por favor. Gente boa o garçom. Filho da puta? Sério? Ele fez isso mesmo? E a sua amiga? Claro, claro, não confio em ninguém também. Ela estava certa. Em você eu confio. É, mas não vou falar onde fica, não. Adoro! Prefiro morena. Não loira, é muito loira, é. Hoje em dia todo mulher quer ser loira, que mania, para mim tem que ser morena, sim. Claro, original. Morena de fábrica. Loira, só se for gelada. Frígida não. Não, não, prefiro ler, você lê? Sério?! De forma nenhuma! Você não é uma mulher balzaquiana, não, não. Não, nem está perto disso. Experiente é feio também, né? Expert, esta é a palavra, isso mesmo. Expert em quê? Ahn, sim, uma viúva negra. Pois sim, saiba que eu sou imune a venenos. Sim, neste mundo podre de escritório a gente aprende ou se lasca. Nunca. É sério, nunca! Nunquinha da silva. Está certo, confesso que sim, isso sim. Mas não foi no trabalho. Que coisa, você gosta de lugares proibidos. Mais emocionante, também acho. Sei, e você é capaz. Hum. Semana que vem, depois que eu receber a promoção te contrato como secretária. Você ri?! É boa em línguas? Hum. E tudo o mais? Então dá detalhes. Nossa. Assim é bom. É. Claro. Não, você não vai ser minha secretária, não. Vai ser minha underdesk. Claro. Isso. Isso mesmo. Aí se alguém entrar, não vê. A mesa é fechada em baixo, o outro que trabalhava lá já deve ter tido essas idéias. Sim, sim, recém-contratado. Não. Na verdade. Na verdade eu já estou lá há um bom tempo, às vezes parece que minha vida toda, meu dia todo, o ano todo, a cada minuto. Sim. É promoção mesmo. Diretor Geral, não. Só Diretor. Isso, sou humilde. Mais um. Não, não. Não falo, não. Ainda não, calma moça. A dama está apressada demais, assim não gosto. Sim. Gosto sim, mas tenha calma comigo, gosto de ficar sossegado primeiro. É. Coxa grossa. Hum. Que bonitos, macios, sim. Bom. Nossa. Está mesmo. Está certo, me convenceu. Não. Que bêbada que nada, Você está melhor que eu. Pega o teu. Vamos para o quarto, gostosa, Andressinha gostosinha. Hum. Não, não conto. Sim, só lá em cima. Só conto lá em cima.

Van

Teodoro Sampaio até Henrique Schaumman
Avenida Sumaré Palmeiras Parque Antártica
West Plaza Barra-Funda direto
Marquês de São Vicente Marginal Casa Verde
Fórum
Cobrador bonito motorista simpático...

A moça sorri sem querer e logo disfarça fingindo rubor.

... Vamo co’a gente moça?

O cartão apita mais dois reais e trinta na conta da vanzinha.
O motor arranca e a catraca gira.